CDI: por que ele não deve ser a régua para todos os investimentos

Uma carteira de investimentos não deve ser considerada boa ou ruim simplesmente porque rendeu mais ou menos que o CDI.


Essa talvez seja uma das comparações mais utilizadas no mercado brasileiro — e também uma das que mais podem induzir o investidor a conclusões equivocadas.

É comum ouvir frases como:

“Minha carteira rendeu 105% do CDI.”

Ou:

“Meu fundo rendeu menos que o CDI, então foi ruim.”

Mas existe uma pergunta anterior, muito mais importante:

O CDI é realmente o benchmark adequado para essa carteira?

Em muitos casos, sim.

Em muitos outros, não.

O problema não está no CDI. O problema está em utilizá-lo como uma régua universal para estratégias que possuem objetivos, riscos, prazos e características completamente diferentes.

O CDI é uma referência para as operações de empréstimos de curtíssimo prazo entre instituições financeiras e, no mercado de investimentos, tornou-se uma das principais referências para produtos de renda fixa pós-fixada. É uma taxa aproximada da taxa SELIC OVER. Por esse motivo, costuma ser muito utilizado para comparativos de carteira, principalmente para clientes com viés conservador.

O CDI é uma excelente métrica para analisar investimentos de curto prazo, nos quais se busca previsibilidade, pouca volatilidade e liquidez facilitada. Contudo, quando realizamos um planejamento patrimonial, essa regra deixa de fazer tanto sentido. Um dos pilares do planejamento é estruturar objetivos de curto, médio e longo prazo. No curto prazo, buscamos recursos para emergências e oportunidades e, a médio e longo prazo, buscamos aumento do patrimônio, facilitação de sucessão e meta de aposentadoria.

Quando pensamos em patrimônio futuro, devemos levar sempre em consideração o aumento da inflação ao longo dos anos, pois ele influenciará diretamente no poder de compra durante a aposentadoria ou em um planejamento de compra de patrimônio móvel ou imóvel.


Benchmark não é sinônimo de “meta universal”


Enquanto escrevo este artigo, o CDI está em aproximadamente 14,15% a.a. Parece atrativo, mas, se buscamos o crescimento de patrimônio a longo prazo, deveríamos nos fazer algumas perguntas:

·  Quanto dessa rentabilidade representa ganho acima da inflação?

·  Por quanto tempo esse nível de juros poderá permanecer?

·  Qual é o risco de reinvestimento quando os juros caírem?

·  Existem outras classes de ativos mais adequadas ao objetivo da carteira?

·  A carteira está suficientemente diversificada?

  • O retorno obtido é compatível com o risco assumido?

Essas perguntas ajudam a compreender por que o CDI, embora seja uma excelente referência para determinados investimentos, não necessariamente deve ser o principal benchmark de uma carteira patrimonial.

Devemos levar em consideração alguns fatos importantes e, a partir deles, entender que o CDI não é a melhor métrica de rentabilidade para quem quer construir patrimônio.

O IPCA acumulado dos últimos 12 meses, segundo o IBGE, é de 4,64%. Neste mesmo período, o CDI acumulado foi de 14,78%, representando um ganho de IPCA + 9,69% no período.

À primeira vista, parece bom, mas, ao analisar um breve histórico, vemos que é uma métrica estável.


AnoIPCA ( IBGE)CDIRent. Acima IPCA
20254,26%14,32%IPCA + 9,65%
20244,83%10,84%IPCA + 5,73%
20234,62%13,20%IPCA + 8,20%
20225,79%12,43%IPCA + 6,28%
202110,06%4,42%IPCA – 5,12%
20204,52%2,75%IPCA – 1,69%



Se o patrimônio cresce 10% ao ano, mas a inflação é 8%, o ganho real é muito diferente de uma situação em que a inflação é 3%.

Enquanto no primeiro caso o ganho real é de 2%, no segundo caso o ganho real é de 7%. E, na prática, o que importa é o ganho real, pois ele determina se o seu dinheiro poderá continuar lhe dando um padrão de vida superior no futuro ou não. Por isso, retorno nominal e retorno real não devem ser confundidos.

Em uma breve análise de 6 anos, o CDI teve média de IPCA + 3,98% a.a.

O desvio padrão observado é de 6,25% anualizado quando comparamos a diferença de rentabilidade real, ou seja, o quanto o CDI rendeu acima do IPCA.

Considerando que você busca a consolidação do seu patrimônio a longo prazo, ter um ativo com volatilidade tão alta não é o mais aconselhável, pelo menos não para ser o foco da carteira e o benchmark a ser considerado.

Com a taxa SELIC alta abre-se oportunidades em ativos de outros benchmarks.

No mercado financeiro, temos a premissa de que a rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura, mas analisar esses dados em uma série histórica é importante para que possamos tomar uma decisão embasada para o futuro.

Ao compararmos o CDI com títulos Tesouro IPCA+ ou créditos privados também indexados ao IPCA, ou até mesmo ativos de risco, como fundos de ações e multimercados, podemos observar que há oportunidades além do CDI.

Abaixo, conseguimos um comparativo entre títulos IPCA+ versus o CDI entre 2020 e 2025. Em todas as análises, os ativos de IPCA superaram a rentabilidade do CDI no período estudado, e com previsibilidade de ganhos reais, zerando, assim, a volatilidade esperada no prazo contratado.

Atualmente, em um vértice de 6 anos, com vencimento em 2032, o Tesouro Direto está emitindo títulos acima de IPCA + 8% a.a.

Portanto, com base em dados, podemos esperar uma rentabilidade atrativa e possivelmente maior que o CDI no período.

Abaixo, veremos o comparativo do CDI com um fundo multimercado. A intenção não é fomentar um fundo de investimentos específico; por tal motivo, não utilizaremos o nome do fundo analisado.

Fundos multimercados podem possuir regulamentos muito distintos entre si. Por esse motivo, considere, além do histórico de rentabilidade do fundo, saber quem é o gestor e há quanto tempo ele está responsável pela carteira, em qual mercado o fundo costuma ter maior exposição e a projeção de futuro através das cartas do gestor.

Abaixo, veremos mais um comparativo, com o nível de risco muito superior às análises anteriores, mas com potencial de valorização no longo prazo.

Novamente a intenção é trazer uma análise com dados, sem necessariamente expor o fundo que foi estudado.
Percebemos que apesar do risco, e inclusive em um dos anos a rentabilidade ter ficado negativa, há possibilidade de crescimento há longo prazo.

O CDI não precisa ser o protagonista da sua carteira.

Todos os dados expostos nos trazem uma análise de que diversos ativos têm grande potencial de superar o CDI no longo prazo e, quando planejamos a construção do patrimônio, buscamos sempre o maior crescimento alinhado ao perfil do cliente, com foco no aumento do poder de compra, ou seja, no ganho acima da inflação.

Ao trazermos a análise comparativa entre todos os ativos, percebemos que cada um tem seu melhor momento, não sendo, em todo o tempo, aquele ativo que está sempre em destaque.

Por este motivo, faz-se importante a estratégia de diversificação, pois, sabendo que a rentabilidade passada não nos garante uma rentabilidade futura, ao fazer uma carteira balanceada, respeitando o percentual de alocação de ativos por classe de investimento, aumenta-se a probabilidade de uma melhor rentabilidade no longo prazo.

Diversificação da carteira de investimentos

É justamente por isso que a diversificação possui papel importante na construção patrimonial.

Não existe uma única classe de ativos que seja a melhor em todos os cenários.

Em determinados períodos, a renda fixa pós-fixada pode apresentar excelente desempenho.

Em outros, títulos indexados à inflação podem se destacar.

Em determinados ciclos, a renda variável pode oferecer maior potencial de valorização.

Em outros, pode apresentar quedas relevantes.

O objetivo de uma carteira diversificada não é descobrir antecipadamente qual será o investimento vencedor.

É construir uma estrutura capaz de atravessar diferentes cenários sem depender de uma única fonte de retorno.

A alocação de ativos deve considerar, principalmente, a tolerância ao risco do investidor e seus objetivos de curto, médio e longo prazo.

A partir dessas informações, é possível definir uma estratégia de alocação coerente e estabelecer um método de rebalanceamento.

O rebalanceamento, por sua vez, permite ajustar a carteira à estratégia original à medida que os diferentes investimentos apresentam desempenhos distintos ou que novos aportes são realizados.

A conclusão: benchmark deve ser consequência da estratégia

O CDI não é um inimigo da boa análise de investimentos.

Muito pelo contrário.

Ele é uma das principais referências do mercado brasileiro e possui enorme utilidade.

Uma carteira composta predominantemente por investimentos pós-fixados pode e deve ser comparada ao CDI.

Mas uma carteira de ações precisa considerar o risco acionário assumido.

Uma carteira de títulos IPCA+ deve considerar a inflação, a taxa real contratada, o prazo e os efeitos da marcação a mercado.

Uma carteira internacional precisa incorporar sua exposição aos mercados globais e ao câmbio.

E uma carteira patrimonial diversificada pode precisar de um benchmark composto, capaz de representar adequadamente as diferentes classes de ativos presentes na estratégia.

No fim, a questão não é simplesmente:

“Quanto minha carteira rendeu?”

Nem:

“Quanto rendeu o CDI?”

A pergunta mais importante é:

“Quanto retorno minha carteira entregou em relação ao risco que assumi e ao objetivo que pretendia alcançar?”

Essa é a diferença entre simplesmente acompanhar a rentabilidade e, de fato, avaliar a eficiência de uma carteira de investimentos.

CDI é benchmark. Não é objetivo universal.

O melhor benchmark não é necessariamente aquele que apresenta o maior número.

É aquele que permite responder, com coerência:

“Minha carteira foi eficiente para a estratégia que escolhi?”

Essa é uma pergunta muito mais importante do que saber se a carteira rendeu 100%, 105% ou 120% do CDI.

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